E se não pudesse deixar herança nenhuma para minhas filhas?

Se eu não pudesse deixar herança nenhuma para minhas filhas, nenhuma charrete, nenhum bem, nenhum dinheiro, mas só um conjunto de ensinamentos sobre dinheiro, quais seriam eles?

Em tempos de muito trabalho, viagens constantes, estou constantemente me perguntando se sou bom pai suficiente, bom marido suficiente. Quando chego em casa não sei se fico feliz ou triste de ver que minhas duas filhas estão com saudades. Vejo a cara da Alessandra cansada e finjo entender o tamanho do fardo que ela carrega, sendo engenheira, administrando a casa e educando as crianças sozinha, mas a verdade é que não tenho nem ideia do tamanho do peso que é.
Em meio a estas e outras reflexões filosóficas, hoje tropecei em uma pergunta que me pegou como um tapão na nuca: e se você não pudesse deixar dinheiro nenhum de herança para suas filhas, somente alguns princípios de como lidar com o dinheiro, que princípios seriam?

“Já não bastasse a responsa de ter que ensinar a segurar no garfo, colocar a mão na frente na hora de tossir e a não maltratar o gatinho, vou ter que ensiná-las a cuidar do dinheiro?” A paternidade me lembra com frequência do trecho da música do Coldplay: “Nobody said it was easy. Nobody said it would be so hard!” (Ninguém disse que ia ser fácil. Também ninguém disse que ia ser tão difícil).
Ultimamente tenho estudado muito sobre finanças pessoais, por conta do Warren, startup de finanças em que sou sócio. Queremos criar uma nova geração de investidores, uma geração que tenha uma relação mais saudável com o dinheiro. E subitamente me dei conta que essa geração, no limite, são minhas filhas!
Sim, vou ter que ensiná-las a cuidar do dinheiro e talvez seja das coisas mais importantes que eu possa deixar para as pequenas. Mais importante que deixar todos meus milhões… de centavos… de Rials iranianos (sim, Rial, com “i”. 1 Real brasileiro equivale a 10.000,00 Rials iranianos). Escrevo este texto imaginando que possa me ajudar a organizar as ideias e quem sabe ajudar uma meia dúzia de gatos pingados que tem o mesmo dilema e não não pararam para pensar no tema.

Além da motivação óbvia para escrever este texto, de querer o bem das minhas filhas, o exercício nos obriga a pensar em conceitos simples, que sejam perenes, apesar de toda a volatilidade do cenário econômico e todas incertezas por vir. (Eu já fui um rico proprietário de uma linha telefônica da Embratel, que dava direito a ações e que hoje valeria exatamente… R$0,00)
Então, quais seriam os ensinamentos que “deixaria”? (“deixar” ensinamento é ruim, pois cada um só aprende por si só, mas na falta de palavra melhor, vou com essa mesmo)

1 — Enquanto gastarem tudo o que ganham, vocês nunca serão livres

Educado numa cultura alemã, com alta predisposição genética à “mão-de-vaquice”, sempre fui ensinado por meu pai a economizar. “Para que tanta pasta de dente? Dá para escovar com a metade!” Eu não entendia aquilo: “Escovar os dentes é uma coisa boa, não é possível que me encha o saco com o quanto gasto de pasta de dente”. E logicamente nunca tinha dinheiro para comprar lanche na escola, minhas roupas nunca eram das de marca e o refrigerante era só para as visitas (e não só era pelas cáries e açúcar).
Mais tarde fui entender a importância disso. Foi essa disciplina de poupar que permitiu meu pai pedir demissão de seu trabalho quando se encheu a paciência e foi fazer o que gostava de verdade. Alguns dão nome a isso de F**k you Money (tradução livre). E é mais ou menos isso. Enquanto você gastar tudo o que ganha, você vai ser unicamente consumidor, vai ser produto e nunca dono. A aposentadoria do governo era algo que funcionava bem no séc XX, mas daqui para a frente cada um tem que ser responsável por sua própria renda para a velhice.
Também mais tarde fui entender que cada coisa que compramos e não usamos (seja pasta de dente, seja uma peça de roupa ou eletrodoméstico) causamos dano não só ao nosso bolso mas também (e talvez principalmente) ao meio ambiente. Por um tempo entendemos isso muito bem em relação à economia de papel (“é uma arvorezinha que vai ter que ser cortada”), mas poucos lembram disso em relação a outros tipos de consumo. Sejam responsáveis, não culpem ninguém.

2 — Invistam nas suas capacidades de gerar renda

Independente da sua profissão, não tenha medo de ganhar dinheiro. É certo que algumas profissões pagam melhor que outras e não se deve orientar sua escolha de vida pela remuneração (até por que o que paga bem hoje, não necessariamente pagará bem amanhã), mas se você se esforçar para ser o melhor que conseguir naquilo que gosta de fazer o dinheiro virá. Pode não vir aos bilhões de Rials iranianos, mas virá. Sejam boas no que fazem e o dinheiro virá.

3 — Conheçam-se a si mesmas

O autoconhecimento nunca é suficiente, mas cada pouquinho facilita muito as coisas, também as “coisas do dinheiro”. Sabendo quem elas são poderão fazer escolhas mais acertadas, desde a profissão que irão desempenhar ao melhor destino para seus investimentos para que satisfaçam suas necessidade concretas e emocionais.

4 — Mantenham o olhar de criança para as coisas simples da vida

Num mundo cheio de gente “feliz, famosa e bem sucedida” nas redes sociais (e cheia de miséria interior na hora de colocar a cabeça no travesseiro), é muito fácil ser engolido pelo consumismo, na esperança de preencher um vazio, de parecer algo. Para isso é muito importante lembrar do que realmente importa e conseguir dormir em uma barraca num acampamento com a mesma alegria que dorme em uma cama de um hotel 5 estrelas. Ser grato pelo presente, pelo que tem e não reclamar do que falta, nos ajuda muito a não gastar em supérfluos e usar o dinheiro para o que realmente importa.

5 — Comprem experiências, não coisas

Apesar da dolorida disciplina, se a conseguimos ter ou não, a vida passa rápido e não devemos olhar para o dinheiro com um apetite insaciável, que tudo o que falta na vida é um zero a mais. Façam sim alguns agrados para si e para suas pessoas amadas ou ajudem quem precisam. Mas toda vez se perguntem: que experiência estou comprando? Por que “coisas” vão e vem, experiências ficam para sempre. Foi disso que fomos atrás quando resolvemos pedalar com elas pelos Alpes de bike. Com o mesmo dinheiro dava para ter comprado muitas “coisas”, mas nada paga as histórias que temos para contar.
Ainda sou um aprendiz em cada um destes quesitos e espero que ainda assim consiga transmitir estes valores para minhas pequenas.
Logicamente, esses conceitos são muito pessoais e não tem a pretensão de serem tomados como verdades por ninguém (talvez, se tudo der certo, por minhas filhas). Se vai funcionar? Pode me perguntar daqui a 40 anos, que talvez eu saiba. E você, que ensinamentos deixaria?

Cruzando os Alpes de bike com as Pequenas – dia 9 – Trento ao Lago di Garda – Chegamos!!

Quem diria que chegaríamos?! Mas chegsmos, ilesos, saudáveis e não esquecemos nenhuma criança no meio do caminho. 

Este último trecho foi o primeiro em que estava com ansiedade de chegar (fora o episódio da Sara doente, por outro motivo). Pela primeira vez olhava para o destino final e estava louco para ver o lago, comemorar e fechar o ciclo.  Leia mais…

Cruzando os Alpes de Bike com as Pequenas – Dia 5 – Nauders a Mals im Vinschgau

Poderia começar outro post com “ué, mas não era…”, mas chega de clichês. 🙂 chegamos obtem em Landeck, passamos o resto do dia dando carinho extra para as pequenas e fugindo do calor. De Landeck sai um ônibus de linha que vai até Nauders, evitando um percurso não só ingreme (menor dos problemas), mas também perigoso. Não há ciclovia e a estrada é estreita Leia mais…